Viver em outro país: o que eu gostaria que tivessem me contado

Quando eu decidi viver em outro país pela primeira vez, gostaria que alguém tivesse me avisado que algo mudaria para sempre. E que muitas vezes seria doloroso. Mas ninguém me disse que morar fora do Brasil me condenaria a estar no limbo. A um constante e imutável sentimento de não pertencimento.

Em 2002 fiz minhas malas, deixei São Paulo e embarquei para Londres, acreditando piamente que nunca mais voltaria. Transbordava de felicidade por finalmente ir morar na cidade pela qual era apaixonada e me parecia o melhor lugar do mundo. Já havia passado duas temporadas de 6 semanas lá e tinha certeza que havia nascido no lugar errado. Londres sim era minha casa.

Os primeiros meses foram maravilhosos. Tudo era novidade, os shows, os passeios, a vida com mais segurança e a possibilidade de andar tranquilamente pelas ruas. Mas os meses foram passando e fui percebendo que não era tão simples. Eu era muito diferente dos ingleses. Minhas referências eram outras, meus costumes, meu jeito de ser e de pensar.

Sentia falta da família, dos amigos, da comida, das tradições. Ali eu era estrangeira, imigrante. O outro. Inferior. Excluída (ainda que não por todos). Mesmo tendo amigos ingleses, trabalhando, tentando me integrar, sempre convivia com o sentimento de não ser dali.

Até que dois anos depois resolvi voltar para o Brasil. Queria minha “verdadeira casa”. Mas então descobri que já não era mais a mesma que havia partido. Eu tinha mudado. E o Brasil também já não era totalmente meu lar, porque eu tinha absorvido um tanto da vida na Inglaterra. Tinha integrado coisas que já faziam parte de mim e que não podia encontrar no Brasil, ou que não funcionavam ali. Assim percebi que não conseguia ser completamente feliz em nenhum dos dois lugares. E isso era definitivo.

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A descoberta de que eu não estava sozinha

Eu sentia essa dor, mas não a entendia direito. E achava que era um sofrimento absurdo e sem sentido. Meio que um problema fútil de classe média com o privilégio de morar fora. Mas ele estava ali, me acompanhando diariamente.

Até que um dia, conversando sobre o assunto com uma amiga, ela perguntou se eu conhecia Stuart Hall, sociólogo e um dos fundadores dos Estudos Culturais, que nasceu na Jamaica e imigrou para o Reino Unido em 1951.

Ele fala da experiência de estar permanentemente deslocado de seu local de origem e sendo forçado a se reconstruir infinitamente por meio de novas narrativas de identidade. E ao ler seu livro comecei a chorar, porque descobri que o que eu sentia era muito real e que inclusive havia um sociólogo estudando e escrevendo sobre isso:

“Estou na Inglaterra há mais de 50 anos. Me casei com uma inglesa, meus filhos nasceram no Reino Unido e hoje eu vejo um país diferente. Hoje temos uma Inglaterra multicultural, mas minha relação com o país ainda é a mesma. Conheço o país e os ingleses do avesso, mas eu nunca poderia me considerar um inglês. Sou formado pela relação de subordinação colonial à Inglaterra. A Jamaica é meu país perdido, ao qual eu não pertenço mais. (…) Não me sinto em casa em nenhum dos dois países, e esta é, eu suponho, a razão da minha ênfase na noção de in-betweeness. Por isso sou interessado no fenômeno da diáspora, nas hibridizações e no que constitui a “casa”, um lugar para o qual nós nunca retornamos efetivamente.”

E dai em diante mergulhei em autores e pensadores que tratam do tema da diáspora e experiências migratórias. Mary Chamberlain, em “Narrativas de Exílio e Retorno” (Narratives of Exile and Return), retrata bem o que é ser um imigrante. O livro é uma coletânea de entrevistas com indivíduos que passaram pelo processo de imigração e experimentaram o sentimento de in-betweeness identificado por Stuart Hall.

Muitos dos entrevistados falam das dificuldades de se reconectar ao seu país de origem quando retornam. Alguns sentem falta do ritmo cosmopolita das grandes cidades para as quais haviam imigrado. Outros sentem que sua terra natal está irreconhecível depois de ter vivido fora. De alguma maneira, é como se a ligação natural e espontânea que tinham com seu país tivesse sido interrompida pelas suas experiências diaspóricas. Quando retornam, podem sentir-se felizes por estar em casa, mas a história parece os ter modificado irrevogavelmente.

De volta ao Brasil, toquei a vida, recriei raízes, embora uma parte de mim desejasse estar em Londres. Passaram-se 16 anos e uma vez mais resolvi partir, agora rumo à Espanha. Dessa vez eu sabia o que me esperava. Nem por isso foi mais fácil.

O processo foi parecido. Um início de lua de mel, vivendo o novo e aproveitando cada minuto. Depois o enfrentamento das diferenças, a dificuldade de adaptação, a descoberta do lado ruim que todo país tem.

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Não-pertencimento, trauma e a criação de identidades diaspóricas

Ahn Hua, feminista asiática, explica no seu texto “Feminismo Diaspórico Asiático: construindo laços” (Diasporic Asian Feminism: Bridging Ties): “Membros diaspóricos com frequência tem um sentimento de não-pertencimento ou alienação no país hospedeiro por causa da exclusão sistemática racista e sócio-econômica.

Para resistir à assimilação ao país hospedeiro e evitar a amnésia social de suas histórias coletivas, as pessoas tentam reviver, recriar e re-inventar suas práticas e produções linguísticas, econômicas, religiosas, sócio-culturais e políticas”.

Mesmo que a gente se empenhe na integração com os espanhóis e sua cultura, acabamos cultivando amigos brasileiros, aqueles que nos entendem melhor. Gente que ri das piadas, gostam das mesmas músicas, cresceram vendo as mesmas coisas que nós.

Fazemos pão de queijo, saímos no pequeno bloco de carnaval (ainda que esteja um frio danado) e celebramos as nossas festas. Até participamos das festas tradicionais locais de Barcelona, mas elas não nos empolgam e emocionam igualmente.

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Carnaval no inverno? É o que temos. Essa é a porta-bandeira da escola de samba brasileira “Unidos de Barcelona”

Fazemos uma tapioca com xistorra, um brigadeiro menos doce para os amigos catalães conseguirem comer, metemos recheio e cobertura nos churros espanhóis. Vamos mantendo um pouco da nossa cultura e incorporando um pouco da deles. Causamos desconforto ao tentar abraçar e beijar um europeu (desconforto para eles e para nós), ficamos constrangidos ao sermos simpáticos demais.

Assim criamos versões diferentes de nós. Sou uma pessoa com os amigos brasileiros e outra com os amigos espanhóis. Stuart Hall escreve que, em uma situação diaspórica, identidades tendem a multiplicar:

“Na verdade, é mais produtivo pensar em identificações do que identidades: “Identificação significa que se é chamado, interpolado de um certo modo: Você, nesse tempo, nesse espaço, para esse propósito, nessa barricada, com essas pessoas.” Uma vez que se tem identificações, então pode-se decidir que identidades serão usadas nesse momento, nesse período, nessa luta política.  (HALL. Subjects in History: Making Diasporic Identities, 1997.)

E eu percebo que hoje me tornei outra pessoa. Deixei de dar bom dia e cumprimentar todas as pessoas. Às vezes me acho meio grossa, talvez apenas se comparada à minha antiga versão brasileira. E às vezes me sinto uma farsa ou acho que me tornei uma pessoa pior.

Síndrome de Ulisses (Síndrome de stress crônico e múltiplo do imigrante)

Algumas vezes, todo esse stress vivido pelos imigrantes pode desencadear a Síndrome de Ulisses. Essa desordem é causada pelos vários tipos de stress a que o imigrante é submetido, seus sintomas são semelhantes aos da depressão e ansiedade e muitas vezes são confundidas.

Porém, não é uma doença mental, e sim uma reação aos níveis tóxicos do stress causados pelas dificuldades do processo migratório. Pode causar enxaqueca, insônia, nervosismo, irritabilidade, medo, fatiga, tristeza, problemas gástricos, dores nos ossos, baixa auto-estima e problemas de produtividade.

O termo foi criado pelo Dr. Joseba Achotegui, aqui da Universidade de Barcelona, em 2002. A Síndrome remete aos sentimentos experimentados pelo herói Ulisses e narrados na Odisséia de Homero. Ulisses teve que migrar forçadamente durante mais de 10 anos durante a Guerra de Tróia.

Seu sofrimento é comparado ao dos migrantes atuais. Normalmente a Síndrome acomete pessoas que migraram por razões de guerra, violência, exploração ou outros fatores extremos e que enfrentam dificuldades, como a separação da família, isolamento social, discriminação racial ou social, pressão para conseguir os meios de subsistência para si ou para enviar para a família, medo de viver indocumentado e ser deportado e uma série de fatores estressantes para sua condição de migrante.

Viver em outro país: Onde é meu lar?

Por que resolvi escrever sobre isso agora? Com a crise causada pela Covid-19, desemprego e recessão, não sabemos se conseguiremos ficar na Espanha. E num momento tão difícil como esse que estamos vivendo, estar perto da família e dos amigos da vida toda dá uma certa segurança.

Mas fico pensando se estou pronta para esse retorno. Se já mudei a ponto de não reconhecer mais o Brasil como casa. Se antes deixei um pedaço de mim na Inglaterra, como será deixar outro aqui na Espanha? Ficaria despedaçada demais? Onde é minha casa? Essa resposta não tenho e nem sei se ela existe.

Diáspora. Memória. Lar. Pertencer. Trauma Cultural. Assombrações.
Eu tento estabelecer links, conexões, pontes. Como uma aranha tecendo redes
de seda entre duas árvores  (genealogias), ramo a ramo, raiz a raiz,
nesta rede emaranhada e efêmera de espaços vividos diários.

Anh Hua – Feminista asiática da diáspora

Viver em outro país vale a pena?

Será que vale a pena morar fora do Brasil, mesmo se sentindo sempre no limbo e sem pertencer completamente a nenhum lugar? Eu acho importante você saber que isso vai acontecer antes de  tomar essa decisão. Que nada será como antes. E que não terá como voltar atrás.

Obviamente morar fora tem um lado muito bom: aprender sobre outra cultura, outro idioma, nos tornarmos mais fortes ao ter que lidar com isso tudo. Acima de tudo entendemos que nenhum lugar é perfeito. Sempre tem coisas boas e coisas ruins. Nos resta focar nas coisas boas de cada lugar, ser felizes com elas e aprender a lidar com a saudade. É fácil? Não. Mas a terapia ajuda.

Aqui sinto saudades do Brasil. E sei que se voltar pro Brasil sentirei saudades da Espanha, como sinto muita saudade da Inglaterra. E em nenhum dos três países me sentirei completa.


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