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O lado B de morar fora: nem tudo são flores

Quando pensamos em morar fora o que vem na cabeça é viver o sonho de começar de novo em um país distante, que por algum motivo foi escolhido pelo nosso coração. Às vezes você se apaixona pela cidade, por alguém que mora lá, quer conhecer uma cultura nova ou escolhe fugir de uma situação de descontentamento, violência ou perigo no país de origem.

Seja qual for o seu motivo para mudar de país, largar tudo e recomeçar em outro país exige muita pesquisa e esforço. Já escrevemos aqui posts sobre o que você tem que fazer para mudar de país e também dicas para morar na Espanha, baseadas na nossa experiência.

Expectativa x Realidade de morar em outro país

Mas hoje eu quero falar do lado B de mudar para outro país. O lado que é pouco falado e discutido, mas que costuma estar presente. A saudade, os pontos negativos que balançam as nossas estruturas e, em dias ou noites ruins, nos fazem pensar “mas o que é que eu fui fazer? O que eu estou fazendo aqui?”

Morar fora é um sonho de muitos e privilégio de poucos. E como todo sonho é construído sobre um alicerce de expectativas. Você corre o risco de desmoronar caso algumas estruturas básicas se mostrem diferentes, frustrantes ou muito piores do que você imaginava.

Faz 1 ano e meio que estou morando em Barcelona. Já tínhamos passado 7 meses aqui antes, fazendo um mestrado, e nesse período nos apaixonamos pela cidade. Depois ficamos 18 meses no Brasil planejando a mudança definitiva, sonhando, traçando planos.

A Fabia fez todo o processo para tirar a cidadania italiana, que possibilitou nossa vinda para cá. Vendemos todas as nossas coisas, abandonamos nosso trabalho, colocamos a casa para alugar, fizemos as malas e pegamos um avião para a Espanha.

Logo nas primeiras semanas já tivemos que enfrentar dificuldades. Da primeira vez que viemos foi super fácil e barato alugar apartamento, pensávamos que seria igual. Não foi. Nesse meio tempo Barcelona estourou como destino turístico, muitos apartamentos passaram a ser AirBnBs e por isso os preços de aluguel foram lá em cima.

O problema não era só o preço, mas também as condições para alugar… Agora que tem muita demanda, as imobiliárias pedem adiantamentos maiores, evitam alugar para estrangeiros e pessoas que não tem emprego fixo… Exatamente a nossa situação naquele momento, e a de muita gente que acabou de chegar.

Depois que conseguimos alugar nosso apartamentinho, veio uma fase de muitos meses de pura burocracia. Fizemos a documentação da Fabia e depois demos entrada no meu pedido de residência e trabalho, que foi uma verdadeira saga. Eu conto todos os detalhes sobre o processo para tirar meu NIE e TIE aqui. 

Resumindo foram 6 meses horríveis, de espera, vai e volta, me sentindo absolutamente rejeitada pelo sistema, pelo governo, pelos atendentes… Parecia que ninguém me queria aqui. E eu não podia trabalhar nem sair do país enquanto esperava.

Depois que esse período tenso acabou, finalmente pude respirar um pouco. Com a documentação em mãos eu estava legalizada, já podia sair do país e procurar emprego. Ainda bem, porque a nossa grana de reserva já estava acabando! 6 meses sem poder trabalhar foi dureza demais.

Consegui arrumar trabalho em uma empresa grande. Tudo indicava que poderia ser considerado um trabalho muito bom e um privilégio para um estrangeiro que acabou de chegar. Mas a minha vida estava muito diferente do que eu havia imaginado.

Quando decidimos mudar para Barcelona procurávamos uma vida mais tranquila e não é o que estava acontecendo. Era bem puxado, com longas horas, em uma cidade longe daqui… Eu sentia que não estava aproveitando nada de Barcelona e estava sempre esgotada.

Quando chegava em casa desabava, não era nada disso o que eu tinha planejado e projetado. Comecei a sentir aí que havia um problema em tanta projeção e expectativa, mas ainda não conseguia formular isso muito bem pra mim mesma. Depois de 6 meses apareceu uma outra oportunidade de emprego que parecia bem melhor, mais perto de casa e eu aceitei feliz.

E, novamente, enchi minha cabeça de expectativas de uma realidade idealizada. PÁ, cara no muro. O emprego é bom, mas os defeitos que tem (como todo emprego), estavam me deixando muito deprimidas. No fundo eu queria estar fazendo outra coisa profissionalmente, tenho um sonho de mudar de carreira que ainda está no começo do longo caminho para acontecer.

A dificuldade é lidar com a realidade diferente da imaginada, depois de tanta idealização cor de rosa.

Barcelona

O porto de Barcelona visto do Montjuic. Esse é um dos meus lugares favoritos da cidade, vou muito aí para pensar na vida…

Esse processo aconteceu comigo pelo viés do emprego, mas conversando com outros imigrantes vejo que cada um tem um gatilho para esse tipo de sentimento. Ou é a papelada, ou é o preconceito, o idioma, dar de cara com um relacionamento diferente do que você imaginava… Todo mundo que muda de país sabe que vai passar por dificuldades, mas ninguém pensa muito nisso. Ninguém fala muito nisso. Esse é o problema.

Conhecemos diversos imigrantes que foram obrigados a mudar de área de atuação radicalmente quando chegaram aqui. Sou consciente do meu privilégio. Por ter formação universitária na área de comunicação, para mim foi mais fácil continuar atuando aqui.

Mas temos amigas advogadas, médicas, que não podem atuar devido às diferenças na formação. É preciso fazer uma reinvenção de si mesmo.

Quando eu estou no fundo do poço da bad por essa questão do trabalho, todas as outras dificuldades começam a aflorar e ganhar maiores proporções. A saudade de casa, da família, dos amigos. A saudade da rotina que eu tinha antes – e que eu nem gostava! – mas que, vista de longe, parece melhor. O cansaço por estar o dia todo falando outro idioma, e não poder me expressar na minha língua materna. O imenso vão cultural e de referência que sempre terei com as pessoas daqui. O jeito tão diferente deles, o meu jeito tão diferente.

Não ter os amigos e a família por perto para me apoiar também pesa. Tem dias que parece que não tenho ninguém para conversar e desabafar. E fazer amigos novos pode ser difícil. Dependendo do país é uma missão quase impossível. E ainda assim eles não serão aqueles seus amigos de toda a vida, que te conhecem desde sempre e sabem exatamente como se relacionar com você e te ajudar.

Eu não sou mais a mesma que saiu do Brasil. Em dias bons, sinto muita gratidão por todos os privilégios de estar em Barcelona, trabalhando, criando um novo grupo de amigos, aprendendo catalão e aperfeiçoando meu espanhol, botando em prática os passos para conseguir mudar de carreira.

Em dias ruins, fico triste, choro, tenho raiva, sinto culpa por ter largado tudo e vindo para cá, quero voltar pra casa da minha mãe. E acho que vou ter que viver tentando equilibrar essa balança para sempre.

É uma montanha-russa de sentimentos, com constantes altos e baixos. É claro que existem fases muito boas e felizes, cheias de fotos legais no Instagram, otimismo, esperança, pontos muito positivos que me fazem querer continuar morando aqui. Mas sejamos honestos, também existem fases em que o sentimento é diametralmente oposto.

Uma coisa que vem me ajudando muito é a terapia. Nunca tinha feito terapia no Brasil, mas quando eu vi que não dava mais, resolvi procurar ajuda aqui em Barcelona. Tanto eu quanto a Fabia estamos passando com a psicóloga Jaqueline Werner, que é brasileira, mora aqui há 15 anos e é especialista em questões de adaptabilidade para quem muda de país.

Antes de começar as sessões eu não percebia que boa parte das minhas questões estavam ligadas à mudança de país e dificuldade de adaptação. Achava que não era nada disso, que a mudança ia bem, que os problemas eram outros…

Mas conversando com ela na terapia passei a perceber que é impossível ignorar o fato de que sim, sou imigrante. Sim, sou diferente. Sim, isso causa e causará impacto na minha vida. Resta, agora, aprender a lidar com isso de maneira mais leve.

Aconselho demais a qualquer pessoa que mora fora, se possível, fazer terapia. Se for com alguém que fala sua língua materna, muito melhor. Assim a gente se sente mais à vontade e compreendido.

Eu sei que é um investimento financeiro muitas vezes alto, ainda mais quando você chega em outro país e tem menos oportunidades de ganhar dinheiro. Mas vale tentar buscar algum grupo de apoio, rodas gratuitas, psicólogos que cobram menos, centros de ajuda e assistência social.

Se a gente não cuida da nossa saúde mental, é muito difícil manter a força e a cabeça erguida para seguir em frente, continuar fazendo planos pra construir o nosso amanhã. Mais importante ainda, pra construir o nosso hoje.

A nossa amiga Angie do blog Apure Guria teve muita dificuldade na Alemanha e depois de um ano resolveu voltar pro Brasil. Leia o relato dela no post: Porque fui embora da Alemanha.

Dificuldades de adaptação? Veja as dicas da psicóloga

Fizemos um bate-papo com a nossa psicóloga, Jaque, falando de tudo isso. Gravamos em vídeo e colocamos no nosso canal do youtube. Você pode assistir abaixo:

Talvez você se identifique com alguns dos pontos mencionados, já que quase todo mundo que muda de país enfrenta um mar de dificuldades. Cada indivíduo tem sua história e particularidades, mas acho que o que nos une é esse sentimento de ser estranho, de nem sempre ser bem compreendido ou aceito.

Como disse a Jaque, é importante estudar a língua e também fazer outros cursos do tema que for, para conhecer pessoas e começar a se enturmar.

A primeira coisa que você precisa fazer para estar bem com o resto é estar bem com você mesmo. Se conhecer, entender seu sentimentos e desejos é fundamental. Antes de ter uma nacionalidade qualquer, lembre que você pertence a você mesmo.

Venha preparado de verdade, tente pesquisar um pouco sobre a realidade para saber o que te espera. Se você leu até aqui, já está fazendo a lição de casa. Ter expectativas mais realistas ajuda demais, faz com que o tombo seja menor. 

A Jaque também menciona que é mais tranquilo mudar em família (com seu parceiro ou parceira, filhos, etc) para ter apoio, se possível. Outra chave é cultivar a paciência. Saiba que as coisas levam tempo, demora mesmo pra completar o processo adaptativo e quando você está em um país diferente o tempo necessário para alcançar objetivos pode ser ainda mais longo. Dê tempo ao tempo e não se cobre tanto. 

É importante destacar que essa está sendo a minha experiência e o texto reflete como eu me sinto hoje. Como eu já falei, são constantes autos e baixos. Por isso mesmo, devemos validar os nossos próprios sentimentos. É legítimo estar triste, insatisfeito ou se sentindo incompleto mesmo estando no país dos seus sonhos. Da mesma maneira que é completamente legítimo estar super feliz.

Último ponto: essa é uma visão minha de mulher branca, brasileira, com formação superior, que fala bem espanhol e é cheia de privilégios. Reconheço. As realidades são muito diferentes para outros imigrantes dependendo da quantidade de privilégios acumulados ou negados.

Você também mora fora e quer compartilhar sua experiência? Escreve pra gente nos comentários. 


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